sexta-feira, 14 de agosto de 2009

meio por cento ao mês

Ouve-se muita lamentação neste mundo e uma bem frequente no meu ouvido diz que Brasília é uma cidade triste, chata, burocrática, um lugar onde não tem nada para se fazer. Mas é só dar uma voltinha de carro à noite para ver os estacionamentos lotados ao redor dos bares, dos restaurantes, das salas de espetáculo. Pega-se o jornal e há programas para todos os gostos, bolsos, classes sociais. Para o intelectual e a patricinha. Um mercadão onde se encontra de tudo. Para todos.
Não enxergar a possibilidade de alegria fora de casa não tem nada a ver com uma cidade e, sim, com quem está reclamando. Aposto que, se essas pessoas se mudarem, encontrarão a mesma coisa no outro lugar. Talvez a busca do prazer tenha merecido uma trava que sequer foi percebida e, quando a insatisfação se agigantou, o jeito foi sair disparando e atingindo a cidade com uma bala perdida. Existe uma equação muito simples: se você se fecha para a vida, a vida se fecha para você. É batata.
Divertimento não costuma cair na cabeça de ninguém e buscá-lo já é uma parte do próprio. E com quem? Se quando alguém tem um sério problema de saúde, daqueles urgentes, sempre surge uma boa alma para ajudar, como é que para cair na farra não se encontra o outro? Ah, encontra, sim. Mas tem que ir atrás. E existe a opção de sair sozinho, que se alia à possibilidade de pescar alguém por aí, conhecido ou não. Do contrário é vestir o pijama cedo e se dividir entre a televisão e a internet. Ou então passar na casa da mamãe e dar um beijão nela pela terceira vez na mesma semana.
Eu me espanto com as desculpas para impedir o prazer. Uma delas é a necessidade de dormir cedo porque o cansaço está demais. Mas o cio vence o cansaço e tem até canção falando nisso. O compromisso matinal com exercícios físicos é outra. Vamos combinar: se você perder um dia na academia, muda o quê na sua vida? E há os que não jantam depois nas nove da noite porque engorda. Isso é insanidade, mas tudo bem, coma antes de sair de casa e tudo resolvido. E os viciados em levar trabalho para casa, que não encontram tempo para o lazer? Paguem um terapeuta, por favor. E se descobre até quem precisa iniciar a leitura de Os Miseráveis, de Victor Hugo, exatamente naquela noite. Sem falar mal dos clássicos, não dava para escolher Dois Irmãos, do Milton Hatoun? Não param aí as desculpas: não tenho uma roupa legal, meu cabelo está feio, não consigo sair sem me preparar de véspera, trabalho cedo amanhã, vou esperar um telefonema internacional, hoje nem eu estou me aguentando, deprimi.
Gozado, os que mais reclamam são, costumeiramente, os mais apegados à obrigação, ao tal do dever que exige cumprimento. Nem tentam harmonizar compromissos com lazer e, por isso mesmo, sentem muito peso na própria vida. Eu conheci uma mulher que, aos sábados, às sete da manhã, despencava para a feira, com sol ou com chuva. Nos horários de verão, o dia ainda era um fim de noite. Ia sem a menor necessidade. Odiava ir, mas ia. Aliás, odiava muitas coisas mas não abria mão delas. Por causa do compromisso, suas noites de sexta-feira eram mortas. Precisava se maltratar.
Percebo que muitos de nós se poupam tanto de viver, brincar, transgredir e gargalhar que acabam ingressando num outro mercado, cujo rendimento, pela queda dos juros, também mingua a cada dia. Creio que o risco de apostar na bolsa de valores da vida, com sustos e altos e baixos, faz muito mais sentido. Ganha-se ou perde-se, a gente sabe. Mas é bem melhor a emoção e a aventura do que meio por cento de satisfação ao mês.

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