Dia bonito. Nos encontramos em poucos minutos na rua. Um carro passou acelerado. Eu me senti íntima do homem que trazia na mão direita o papel ofício dobrado em quatro. “Pra você”, me disse. Não leria ali andando e muito menos queria parar. Exercício pra mim é sagrado. Além disso, era coisa para se fazer sozinha, num canto. Afinal, ia entrar em local incerto e não sabido da vida de alguém que eu mal conhecia. Gozado, me percebi curiosa e doida para voltar para casa, àquela hora ideal para ler o tal e-mail. Só estaríamos eu e a empregada, a Rosa. Foram quase quatro quilômetros silenciosos.
Entrei quase correndo, tirei a roupa, tomei banho, passei creme. Sentei na bergère do meu quarto, peguei os óculos.Ele havia retirado as indicações de remetente e destinatário. Só mesmo texto. Um tempo depois, me senti uma intrusa, me senti mal. Havia dor ali. Passava em revista uma jornada cheia de revolta e tropeços. Descompensada. O bom e o ótimo foram ignorados. O remetente foi duro como um pai dos velhos tempos, alinhou erros na base do 1, 2,3, e arrematou afirmando que a vida era de cada um, sem margem para atribuir a outros o sucesso ou o fracasso. Mas abriu uma janela: com esforço, cenário novo.
Não quero reproduzir o e-mail. Parece-me abusivo. Mas, entre os dedos nas feridas, encontrou espaço para qualquer coisa semelhante a carinho, empatia. Insistiu na busca do prazer em todas as direções, sem medo, sem culpa e sem prazo. Que prazer atraia prazer e, possivelmente, trabalharia melhor, amaria melhor, conviveria melhor. Descobri que meu amigo(?) era viciado em sofrimento e contaminava os próximos, em especial as mulheres.
Sugeriu que jogasse fora a máscara da obrigação, abrindo espaço para o riso, o gozo, a brincadeira. Para o outro lado da vida. O hábito fazia dele um sujeito pesado, desagradável e sempre criticado no trabalho. Além disso, não resultava numa produção de nível, aumentava o estresse e surrupiava a alegria.
Lembrou que ninguém pode alterar o passado e, por isso, melhor deixá-lo no seu lugar, lá atrás, esquecido. E culpas por atitudes equivocadas não levam a lugar nenhum. Aprender e modificar o comportamento são atitudes suficientes. Nada mais.
Assegurou que um olhar melhor e menos crítico para o mundo e as pessoas era uma questão de generosidade consigo mesmo, frisando que cobranças pessoais exageradas geram pessoas insuportáveis no trato com os outros, em especial os subalternos.
Disse também que a polaridade é onipresente e, com olhos de simplesmente olhar, sem julgamentos enfileirados e prontos para qualquer situação, perceberia que só se vê o belo pela noção do não-belo. Portanto, que se abrisse para os dois lados, sem ênfase no negativo. Assim, descobriria beleza em tudo, até num governo, na lama. E que tentasse, de todas as maneiras, jogar fora o lixo emocional acumulado, procurando o novo dentro de si mesmo. O novo limpo.
Dobrei novamente o papel e o coloquei na primeira gaveta da mesa do escritório. Em breve, teria de dizer alguma coisa para aquele homem. Como ouvira recentemente de um amigo com jeito de pensador que palavras bem escolhidas fazem milagres no dia-a-dia, decidi que tanto a forma como o conteúdo estariam alinhados. E me dispus a esperar nosso próximo encontro.
Entrei quase correndo, tirei a roupa, tomei banho, passei creme. Sentei na bergère do meu quarto, peguei os óculos.Ele havia retirado as indicações de remetente e destinatário. Só mesmo texto. Um tempo depois, me senti uma intrusa, me senti mal. Havia dor ali. Passava em revista uma jornada cheia de revolta e tropeços. Descompensada. O bom e o ótimo foram ignorados. O remetente foi duro como um pai dos velhos tempos, alinhou erros na base do 1, 2,3, e arrematou afirmando que a vida era de cada um, sem margem para atribuir a outros o sucesso ou o fracasso. Mas abriu uma janela: com esforço, cenário novo.
Não quero reproduzir o e-mail. Parece-me abusivo. Mas, entre os dedos nas feridas, encontrou espaço para qualquer coisa semelhante a carinho, empatia. Insistiu na busca do prazer em todas as direções, sem medo, sem culpa e sem prazo. Que prazer atraia prazer e, possivelmente, trabalharia melhor, amaria melhor, conviveria melhor. Descobri que meu amigo(?) era viciado em sofrimento e contaminava os próximos, em especial as mulheres.
Sugeriu que jogasse fora a máscara da obrigação, abrindo espaço para o riso, o gozo, a brincadeira. Para o outro lado da vida. O hábito fazia dele um sujeito pesado, desagradável e sempre criticado no trabalho. Além disso, não resultava numa produção de nível, aumentava o estresse e surrupiava a alegria.
Lembrou que ninguém pode alterar o passado e, por isso, melhor deixá-lo no seu lugar, lá atrás, esquecido. E culpas por atitudes equivocadas não levam a lugar nenhum. Aprender e modificar o comportamento são atitudes suficientes. Nada mais.
Assegurou que um olhar melhor e menos crítico para o mundo e as pessoas era uma questão de generosidade consigo mesmo, frisando que cobranças pessoais exageradas geram pessoas insuportáveis no trato com os outros, em especial os subalternos.
Disse também que a polaridade é onipresente e, com olhos de simplesmente olhar, sem julgamentos enfileirados e prontos para qualquer situação, perceberia que só se vê o belo pela noção do não-belo. Portanto, que se abrisse para os dois lados, sem ênfase no negativo. Assim, descobriria beleza em tudo, até num governo, na lama. E que tentasse, de todas as maneiras, jogar fora o lixo emocional acumulado, procurando o novo dentro de si mesmo. O novo limpo.
Dobrei novamente o papel e o coloquei na primeira gaveta da mesa do escritório. Em breve, teria de dizer alguma coisa para aquele homem. Como ouvira recentemente de um amigo com jeito de pensador que palavras bem escolhidas fazem milagres no dia-a-dia, decidi que tanto a forma como o conteúdo estariam alinhados. E me dispus a esperar nosso próximo encontro.

Aguardo o terceiro capítulo.
ResponderExcluirBeijos
– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das
ResponderExcluirruas...
– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
– Por favor, telefone
– Pra semana...
– O sinal...
– Eu procuro você...
– Vai abrir, vai abrir...
– Eu prometo, não esqueço, não esqueço...
– Por favor, não esqueça, não esqueça...
– Adeus!
– Adeus!