segunda-feira, 23 de março de 2009

ilusão de ótica

Unir riqueza e felicidade como se fosse uma dupla imbatível e coesa constitui uma das manias do mundo. Os bem sucedidos são olhados como seres superiores e pairam acima dos demais, muitos dos quais fazem questão de lhes render homenagens ou, pelo menos, deixar claro o reconhecimento pelo sucesso. Quanto mais distantes dos bem aquinhoados, mais apreço, pois a inveja reina entre os iguais ou próximos.
Esse comportamento, que sublinha diferenças, se expressa pelo olhar, pela escolha das palavras, e até pela postura diante dos poderosos. Se bem observarmos, as pessoas não costumam se dirigir aos comuns da mesma maneira. Elas próprias reconhecem a sua e a casta do outro e estabelecem como agir, sem que leis ou cultura tratem da diversidade econômica e social, sem um figurino imposto.
Da mesma forma que uma imensidão de pessoas não percebe que os mais pobres numa sociedade sofrem também por seus problemas emocionais, já que os veem como peças de máquinas de trabalho, os ricos, pela ótica da maioria, estão sempre prontos para a felicidade, a essência da vida deles. Tudo para a classe A é fácil, à mão, realizável. Eles também não têm problemas emocionais. Quando sofrem, trata-se de exceção. Afinal, possuem tudo.
Não possuir é outro mito. O grande desejo do pobre é a sobrevivência - emprego, teto, comida à mesa. Como mostra o trabalho braçal, são mais fortes e resistentes. Não sofrem por qualquer bobagem e limitam seus sonhos. Afinal, conhecem suas possibilidades. Uma palavra amena, uma peça de roupa usada e um bom lanche abrem seu coração.
A fantasia em torno do ter ou não ter é cruel. Gera comportamentos violentos e agressivos e também muita apatia e desdém. Frente à frente, verifica-se uma postura. Mas é só um se virar de costas que explodem questionamentos. Para uns, a vida é assim mesmo; para outros, não dá para aguentar. O conflito é real. Um não entende e jamais se identifica com o outro, ambos temem o outro e, ao final, não se enxergam simplesmente como pessoas que sentem as mesmas coisas: amam, alegram-se, choram, sonham. Impressionante como o poder separa as pessoas. Impressionante como o dinheiro cria uma ilusão de ótica.

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