sexta-feira, 6 de março de 2009

Tom Zé

Tom Zé passou ontem pela cidade. Ou melhor, deu um show de verdade. Discursou, xingou, brincou de programa de auditório, dançou e colocou o público para dançar forró, simulou sexo no palco, regeu a banda e até cantou e tocou. Quem não foi, perdeu um espetáculo musical de primeiríssima e a oportunidade de tomar um banho de alegria. Só se batia palmas rindo muito. Valeu.

Antes de cada canção, Tom Zé se deteve demoradamente para explicar e analisar o conteúdo de cada canção. Um negócio tão louco e tão inteligente, misturando verdade e fantasia, elogio e crítica, que a platéia viajou. Como pisa o convencional, esmaga-o até, cada um que defina como quiser a fala dele. O importante é ouvir. Bom demais.

Explicou pelo viés caótico-brilhante a bossa nova e o João, curtiu Sampa transformando em moças algumas ruas famosas como Angélica, Augusta e Consolação, e se esmerou ao tratar do funk. Com o refrão “tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha”, deu uma aula de sexualidade feminina que acabou num streap parcial. Interrompeu a música, voltou a ela e tratou o palco como a cozinha da casa dele. Mas com tanta competência, humor e musicalidade que tudo virou puro espetáculo. Assistindo à farra, o Belchior. Ao esclarecer que faria o que nenhum músico deve fazer, Tom Zé chamou-o ao palco. O cearense cabeludo, peito de pombo e voz de tenor não se fez de rogado e a alegria aumentou, com todo mundo cantando “tenho 25 anos de sangue e de sonhos e de América do Sul...”

Difícil assimilar a energia de Tom Zé . Com 72 anos, o sertanejo de Irará, na Bahia, pula, fala pra burro e canta sem intervalos. Parece um menino maluquinho. Sua presença é tão forte que não cabem sentimentos mornos em relação a ele: ou adorar ou achar um horror. Nos palcos desde a década de 1960, depois de estudar harmonia, contraponto e composição na Universidade Federal da Bahia, além de piano e violoncelo, teve altos e baixos na carreira. Passou pelo Tropicalismo e quando gravou o álbum “Todos os Olhos”, em 1973, sofreu um baque: inovou demais. A crítica não o absorveu e nem o absolveu. Os outros baianos e os novos prosseguiram. Ele ficou marcando passo.

Em 1990, a reviravolta. O músico e editor David Byrne o descobriu num sebo e o resultado foi “The Best of Tom Zé”, considerado pela revista Rolling Stone um dos 10 melhores discos da década. O The New York Times também lhe concedeu um prêmio e, com trabalhos na Europa e nos Estados Unidos, além de um namoro com a crítica internacional, reconquistou em 1999 os palcos brasileiros e virou filme de Décio Matos Júnior em 2006 – Fabricando Tom Zé.

Incontrolável, imprevisível, livre, culto, singular, delirante, competente, grande palhaço mas pura conseqüência também, só me resta, em sua homenagem, entoar o refrão eu quero mais é o Tom Zé, eu quero mais é o Tom Zé, eu quero mais é o Tom Zé...

Um comentário:

  1. Deve ter sido muito bom!
    Dá vontade mesmo de ter ido lá.
    Beijos,
    Leda

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