A fantasia me tomou: tudo o que eu queria era ter "as coxas de labareda" da Gabriela, aquela do cravo e da canela. O romance de mestre Jorge me sacudiu. Não sabia o que fazer com as coxas pegando fogo. Só sabia que o sonho era tê-las. Virava e mexia, e as coxas lá, esquentando minha cabeça.
Aí, um dia, em sala de aula, redigi o seguinte diploma: "Confiro a Jacimar Damasceno Torres o título de rameira número um deste estabelecimento de ensino". Datei, assinei e, no ato, o flagrante. Depois de tentativas de negociação, com a professora enorme do meu lado, não consegui entregar o documento à diplomada. Dancei. A escola me apertou e saí pela tangente, confessando que aprendera aquilo na Gabriela. Me mandaram ler "O Pequeno Príncipe". Não passei perto. Sempre gostei da desobediência. Pior: adquiri uma noção oswaldiana do manual das misses: "não li e não gostei".
Mas não parou aí. Chamaram meu pai para que ele ficasse sabendo daquele pensamento absurdo. Mãe era pouco naquela situação. E passaram a me olhar de banda, transformada no mau exemplo ambulante. Ninguém percebeu a originalidade de uma escola pública formar putas. Ninguém riu. No vetusto estabelecimento eram desconhecidos, suponho, as descobertas e os hormônios da adolescência e prevalecia, dominava mesmo, o moralismo. Quando encontrei meu pai depois da ida à escola, temi e tremi. Econômico nas palavras, disse apenas: "verba volant, scripta manet". Ou seja, as palavras voam e a escrita fica. Um alívio e um aprendizado para o resto da vida. Adorei meu pai naquele minuto e, mais ainda, o seu latim.
Só que, desobediente, fiz da escrita meu ganha pão e muito do meu prazer, diplomas à parte. Só quem trabalha uma frase que dá certo, fica bonita, sabe a alegria que a gente sente. Escrever também é rir das palavras e, mais ainda, com elas. É gostar daquilo impresso, especialmente quando sai do coração. É viver e reviver a doação da mente, sentir por vezes saudade de um texto, perceber a hora do lírico, da dor, da ironia, da sacanagem, da brincadeira, da mentira e da verdade. É tudo. Criação.
Hoje, com meu Papo Furado, visito a adolescente que descobriu a rameira e, em seguida, seus mais de cem sinônimos no dicionário, prova inconteste de que a sociedade não perdoa esse tipo de moça. E reconheço minha coerência: adoro escrever. Principalmente sem o compomisso com o sério. Na verdade, adoro todo tipo de bobagem.

Esse texto é 100% a Leda Flora que conheço: linda, sensual, inteligente, ireverente e muito, muito poderosa. Amo vc, Ledura
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